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Lacrima Terra
Junho de 2024. Foi uma longa viagem. O aeroporto estava fechado, destruído pelas chuvas. Na estrada, já próximo à cidade de Porto Alegre, os olhos estavam morbidamente ávidos por dar realidade às imagens que até então só tinha visto à distância, midiaticamente. Conhecia há algum tempo aquela paisagem, mas, ao olhar para o horizonte de prédios que prenunciava a chegada, me deparei com grandes lagos. Eles já existiam? Não havia até então reparado sua presença? Alguns momentos de confusão antes da certeza: o que agora reluzia eram planícies antes secas. O carro entra na cidade. O trânsito parece rotineiramente caótico, e penso na estranha teimosia das coisas em permanecer como sempre foram, apesar de tudo. Mas então o que eu esperava ganhou corpo. Percebo uma crescente tonalidade ocre tomando toda a paisagem, afunilando-se numa série de traços escuros que cortavam todas as construções. Estavam ali escritos nas paredes os níveis que a água alcançou, seu tempo de permanência e partida, a depender do quão espessas eram as linhas. Senti como se a cidade tivesse sido escavada, redescoberta por arqueólogos interessados nas lembranças de uma antiga civilização.
Estava com uma equipe de profissionais de saúde. Eu, como psicólogo, perguntando-me a todo momento: o que poderei fazer com o que encontrar? Penso que todo psicólogo deve guardar dentro de si, a despeito de seus conhecimentos prévios, esse receio. Acredito que o mesmo deve servir a um fotógrafo. Levei comigo minha câmera.
Tínhamos por objetivo prestar assistência à Vila Dique, comunidade ao norte da cidade, composta em sua maioria por pessoas que vivem da coleta e reciclagem de lixo. A comunidade é distante de serviços públicos básicos, vive em condições sanitárias de risco, e sua única escola — instituição à qual tive oportunidade de conhecer a competência e o afinco de seus profissionais — fora muito danificada pelas chuvas. Ao fundo da comunidade, um imenso lago, que então me saltou à memória ser o mesmo que eu avistara em minha chegada. Nele, era possível ver os animais mortos que não conseguiram fugir das águas.
A função de psicólogo pouco a pouco foi tomando forma, seja na escuta, no aconselhamento ou no simples apoio às tarefas cotidianas. Em suma, tratava-se de estar presente. Se, como psicólogo, eu era bem-quisto pela comunidade, quando eu tinha minha câmera em mãos a situação se invertia: era questionado a todo momento sobre o que eu estava fazendo e para que serviriam aquelas imagens. De fato, observar e capturar a dor alheia pode ser uma posição perversa. Afinei, momento a momento, a conveniência da lente, dentro do que pude sentir. Na maior parte do tempo, não era hora de retratar, senão de tratar. Daí que meu olhar tenha passeado tanto por animais, paisagens, recortes. Meu trabalho posterior de seleção e edição não foi um esforço descritivo, mas o de dar contorno à atmosfera afetiva que pude ali absorver.
Não são poucas as pessoas que, diante das catástrofes climáticas, reforçam suas crenças de que estas anunciam um iminente apocalipse que dará início à vida celestial. É uma das crescentes formas de atribuir aos cursos da natureza qualquer ausência de responsabilidade humana — logo, política. Mas, se ao humano pertence uma inércia que o empurra para sua própria destruição, é possível nos perguntarmos se ele, em seu íntimo, quer, na verdade, não destruir a si mesmo, senão às suas condições de vida atuais. Quem sabe somos impelidos à destruição por um secreto desejo de novidade. Pois nesta terra já há lágrimas demais.





































